Tenho 20 anos. Nunca namorei. Nunca fiz nada e acho que já deu pra entender a que me refiro. Não bebo, não fumo, não como carne vermelha. Não vou a barzinhos nem baladas. Quase nunca saio, se saio estou de volta até -no máximo- onze horas da noite.
Trabalho na empresa da família, para ajudar minha mãe, que teve um problema sério e precisa viver com mais tranquilidade. Odeio meu trabalho. Faço faculdade, e meu curso não tem nada a ver com o meu trabalho.
Tive uma oportunidade maravilhosa de emprego recentemente e recusei, por causa do meu emprego, por causa da minha mãe.
Minhas únicas fontes de entretenimento são a TV, o PC e o PS2. Simplesmente porque não tenho outra opção. Se saio até de madrugada, faço minha mãe passar mal de nervoso e preocupação. Se saio no geral, ela acha que não a ajudo em casa e se sente sozinha.
Apesar de tudo isso, ainda tenho que escutar como sou indisciplinada, como faço tudo na última hora, como perco tempo no computador, no video game e o caralh* a quatro.
Queria, por um dia, dar a louca. Beber até cair, transar com um desconhecido, só pra poder mostrar pra todo mundo o quão legal eu sou. Eu só queria um pouco de reconhecimento e liberdade.
Não. Só escuto críticas. Só escuto como faço tudo errado, tudo que faço é para castigar os outros.
Na faculdade me acham folgada, pois nem sempre entrego os trabalhos, e se entrego, nem sempre estão corretos.
Como explicar que simplesmente não tenho ânimo para levantar da cama de manhã?
Afinal, pra que viver se vou odiar cada segundo da minha vida? Se a vida que vivo não é minha?
Vivo para os outros, e tudo que faço para mim é um erro. É um problema.
Estou cansada de discutir, estou cansada de olhar para frente e não conseguir enxergar um momento meu de felicidade.
Não vejo propósito na minha faculdade, já que não estou conseguindo me dedicar a ela ou a minha ‘carreira’. Não vejo propósito no meu trabalho, pois o detesto.
E não consigo sair disso, pois qualquer coisa que eu fizer irá interferir na frágil saúde da minha mãe, e eu não quero carregar a morte de ninguém nas minhas costas.
Queria ter coragem para acabar com tudo.