Uma vida sem brilho
ago 01
Não sinto vontade de viver, tenho 30 anos, mas aparento ter muito menos, tenho muitas qualidades,muitas pessoas me admiram e outras me detestam por essas mesmas qualidades. Já tive muitas amizades, mas sempre, desde criança, me sinto sozinha… Mesmo sempre tendo total atenção da minha família.
Há cinco anos tenho buscado atendimento psicológico e psquiátrico, mas até hoje não tive êxito, a cada dia que passa me sinto mais fraca, mais desânimada… Deixei de sair de casa, depois deixei de ir ao quintal, deixei de sair do quarto, e agora só me levanto da cama para ir ao banheiro, que fica dentro do quarto… Mantenho os tratamentos, saio apenas para ir ao médico e a terapia, tomo os medicamentos corretamente mesmo não obtendo resultados significativos.
Para evitar um sofrimento maior a minha família faço com que eles pensem que estou com preguiça, assim é mais fácil, porque dá esperança de que eu posso mudar de comportamento.
Na minha vida não acontece nada, nada de bom e nada de ruim. Nunca tive grandes problemas, nunca passei por situações muito difíceis e as coisas que me afligem na maioria do tempo são superficiais. Também nunca tive grandes emoções, mesmo tendo uma vida tranquila, com oportunidades para me divertir e conquistar das pequenas as grandes coisas.
Nem eu me entendo hoje… A sensação que tenho é que a minha vida passou e eu não vi… Aos 22 anos eu parecia ter um futuro brilhante, inteligente, bem humorada, proativa, cheia de energia… Mas nada aconteceu, desde então minha vida tem sido apenas de pequenas decepções…
Entrei na faculdade mas até hoje não consegui me formar, tive alguns relacionamentos que não deram em nada, não trabalhei o quanto deveria e gostaria, não ajudei minha família, não tive filhos, meus amigos se casaram e se afastaram (a maioria dos casais tem receio de manter a amizade com uma moça solteira, é como se a gente vivesse a esperando que o marido enjôe da mulher pra ter um caso com ele).
Hoje com 30 anos não me sinto uma mulher, me vejo como uma menina de 20 anos, nem minha aparencia mudou, as pessoas se assustam quando digo minha idade… Eu não sei nem dizer se eu amadureci, continuo brigando com meu irmão por pequenas coisas, continuo falando pelos cotovelos, continuo não sabendo como me comportar na frente das pessoas em situações formais…
O tempo todo sou cobrada porque as pessoas dizem que eu sou muito inteligente, não posso falar uma única palavra incorreta e nem posso falar muito bem porque na maioria das vezes as pessoas curtem com a minha cara. As pessoas fazem isso comigo porque minha vida é recheada de histórias que meu irmão e minha melhor amiga inventam, as vezes por ciúmes, as vezes por querem se gabar e terem um trunfo sobre a minha tão famosa “inteligência”.
Passo muitomlonge de ser um gênio, nunca fiz nada extraornário que justifique essas cobranças, acho que a solidão me faz permitir que essas coisas me afetem. Sou uma pessoa racional, e isso me faz ter vantagem sobre outras pessoas com relação a inteligência. Um exemplo, minha inteligência matemática é nula, sempre tive dificuldade para decorar, aliás sempre tive difuldade para me lembrar das coisas, por isso desenvolvi meus métodos pra conseguir fazer uma conta de cabeça, e isso é oque me torna diferente para as pessoas, mas se eu precisar explicar como cheguei ao resultado eu não sei dizer.
Por ser uma pessoa racional e dinâmica eu adquiri muito conhecimento intelectual, aprendi sobre várias coisas (nas quais a matemática não faz muita diferença), sei falar bem e sobre diversos assuntos, observo coisas que passam batido pra maioria, enfim, sou bem informada e tenho feeling. Isso seria ótimo para qualquer pessoa, mas não é pra mim…
No Brasil o preconceito contra o pobre é extremista, quando digo que sempre estudei em escolas públicas, que meus pais não tem dinheiro, enfim, quando eu digo que eu sou pobre, as pessoas passam a desconfiar de mim, me tratam como se eu fosse uma pessoa muita esperta e pronta para enganar alguém a qualquer momento.
Por outro lado, se eu não falo sobre a minha condição financeira logo sou acusada de ser pobre metida a rica, de ter vergonha de ser pobre…
Aí alguém diz ” você não pode levar isso em consideração, isso é inveja dos outros, não deixe esse tipo de comentário te afetar”… É muito fácil não se importar com esse tipo de coisa quando ouvimos isso por parte de algum amigo menos íntimo, ou de uma tia velha e recalcada, mas e quando esse preconceito e essas disconfianças vem da parte de um possível empregador, de uma pessoa com quem você gostaria de namorar?
Já ouvi tanto “isso aconteceu porque ainda não era a hora certa, um dia você vai encontar alguém que vai te valorizar”… Eu não me importo em esperar pela hora certa, o que me torna infeliz é a hora errada sempre bater a minha porta, eu já passei por cima de muita coisa muitas vezes, não suporto mais…
Eu me dizia sempre “tenho que continuar tentando”, depois passei a pensar que era melhor “ir dando um tempo”, ir mais devagar, não esperar tanto de tudo e todos… E nada aconteceu, nada deu certo, fracasso após fracasso, por culpa minha, por culpa de outras pessoas, pelos mais diversos motivos, muitos quase inacreditáveis (namoro acabado por ser muito bom, ele achou que eu tratava ele bem pra dar um golpe nele…)
E o pior de tudo é que eu sou otimista, quando conheço alguém legal esqueço tudo de ruim que fizeram, quando aparece uma oportunidade eu vou para entrevista com a espereça de que dará certo, mas nunca nada dá certo, se me esforço não dá certo porque “não tinha” que dar, ou eu me esforcei demais… Se não me esforço obviamente é por isso que não deu certo, o fato é que não dá em nada, há anos, mais precisamente há 8 anos, que espero por uma chance de fazer alguma coisa, há 8 anos procuro por um meio de fazer qualquer coisa, cheguei inclusive a pensar que já que eu não consegui nada era porque na verdade eu deveria me dedicar a ajudar os outros e nem isso eu consegui.
Nunca consegui me engajar em nada, sempre pelos mesmos motivos: desconfiança, ciúmes, precoceito… E aí que eu me pergunto “eu sirvo para quê”? Pra que serve uma pessoa que tem muitas qualidades? Eu não sou irreal, tenho muitos defeitos como qualquer pessoa, porque me dão mais importância do que mereço?
Tudo queria, tudo que eu sempre sonhei era uma vida normal, como a de qualquer pessoa que nasce em uma família pobre, estudar, ajudar a família a melhorar de vida, casar, ter filhos, cuidar da minha família, trabalhar na área que domino melhor, ajudar as pessoas através do meu trabalho (sim, minha profissão está diretamente ligada as pessoas, me dando N possibilidades de contribuir para um mundo melhor).
Eu não consigo idenficar qual é o meu principal erro, eu não consigo entender como eu consegui deixar a minha se enrolar desse jeito, mas o fato é que eu devo estar errando muito em algum momento crucial, que faz com as coisas se desfaçam na minha frente como fumaça…
Eu não me preocupo com reconhecimento, não quero ser vista, a minha vida está nos bastidores, eu tenho que estar lá para ascender as luzes, eu não preciso brilhar, só preciso ajudar a criar o brilho…



