Só um desabafo triste
dez 12
Sinceramente falando, não sei mais o que fazer com relação a você.
Sei que o que está acontecendo não é inteiramente sua culpa; sei que o alcoolismo é uma doença, e sei também que você não é só o alcoolismo, mas que, debaixo desse problema, há a pessoa maravilhosa com quem cresci, que aprendi a amar, e que achava invencível e invulnerável.
Mas a minha dor é tão imensa, tão grande, que consegue superar os bons sentimentos que tenho por você. Quando vejo que está completamente tomado pelo álcool, sinto-me como se estivesse voltando no tempo, naquela época em que nós ficávamos sozinhos na sala, tristes, tentando nos distrair assistindo TV enquanto a nossa mãe roncava bêbada na cama. Àquele tempo em que eu era uma criança tão triste, forçada tão cedo a amadurecer, e que tudo que queria era que alguém a tirasse dali daquele sofrimento.
Como, tendo passado por tudo isso quando era criança, você, ainda assim, se torna um adulto viciado em álcool?
Não pense que não gosto de você. Eu te amo tanto que, às vezes, sinto que meu coração vai explodir de tanta dor. E sinto-me ainda mais triste por não ter condições de ajudá-lo como merece.
Talvez você ache que eu não goste mais de você devido ao desprezo com o qual o venho tratando nos últimos tempos. Isso não é verdade. Você é uma das pessoas mais importantes da minha vida. Mas é que, do jeito que as coisas andam, decidi ir matando você aos poucos dentro de mim, para não sofrer tanto na hora em que, finalmente, recebermos a notícia de que você morreu em virtude de algum problema direto ou indireto causado pelo álcool.
Hoje eu olho para você, e mal reconheço. E, hoje, eu olho para mim mesma e também não me reconheço mais. Acho que o resto de coisas boas que ainda existiam em mim está morrendo – e, muitas vezes, eu desejaria que o corpo físico morresse também, para não ter mais que passar por essa tortura.
Embora ainda continue viva, posso dizer, com honestidade, que minha vida acabou.







