Aniversário de Bonecas
jul 30
Não gosto de fazer aniversário. Sempre que o dia vai se aproximando mergulho numa tristeza profundo, numa terrível sensação de vazio e desamparo. E isso nada tem a ver com o fato de estar ficando mais velha. Olhando para o meu passado encontro um evento que talvez explique essa minha aversão a fazer anos. Quando era criança, no meu nono aniversário, aprontei uma travessura tola, que sinceramente não consigo me lembrar o que foi, por mais que me esforce. Mas sem dúvida foi bastante pueril, pois nem eu nem minha mãe fazemos mais ideia do que tenha sido. Tal traquinagem deixou minha mãe furiosa, a ponto de me bater e me colocar de castigo. Lembro-me dela me dizer que, mesmo sendo aquele o dia do meu aniversário, que não me faria nada, nem um minúsculo bolo, tampouco me daria algum presente, nem mesmo um econômico “feliz aniversário” eu receberia da parte dela ou de meu pai, já que ela o proibira de fazer qualquer coisa do tipo em função de minha molecagem. Fiquei triste, revoltada, me senti diminuída e sem importância. Fui até a padaria e comprei um pedaço de bolo de chocolate. Era um pedaço bem quadradinho, não tinha recheio e a massa era de um doce meio enjoadinho que eu gostava. Voltei pra casa, passei uma geléia sobre o pedaço solitário de bolo e peguei uma caixa de fósforos. Me tranquei no quarto, onde juntei todas as minhas bonecas, sentando-as em círculo. Sentei-me no meio delas, espetei o palito de fósforos no meio do bolo, acendi e cantei parabéns pra mim mesma. Chorei ao comer a primeira garfada, o doce enjoadinho do bolo parecia estranhamente amargo. Nunca havia me sentido tão só. No meio dessa solidão absurda minha mãe apareceu na porta, com a cara amarrada e falando grosso, me dizendo que uma amiga estava me chamando no portão. A menina havia ido me dar um abraço e me levar um presente, tão simples mas tão reconfortante naquele dia: era um pequeno diário, cor-de-rosa, com bichinhos fofos desenhados na capa. Naquele dia eu, com nove anos recém-completos, experimentei pela primeira vez a solidão absoluta, a indiferença e a amargura do universo dos adultos. Mas, sem saber, descobria naquela menina o verdadeiro sentido da amizade. Não é a toa que ela ainda hoje é minha melhor amiga, mesmo depois de 16 anos.



